Esta Cidade Mudou Tudo

Saudações da Índia

Espero que estejas bem.
Na semana passada, estive a falar-te do nosso drama com o whiskey e de como a Índia não está assim tão má hoje em dia. Se perdeste o fio à meada, podes pôr a leitura em dia aqui.
Tínhamos chegado à cidade de Vadodara, em Gujarat — um estado onde o álcool é proibido. De lá, o nosso amigo, o dono da mina, veio buscar-nos (podes vê-lo neste vídeo que fiz sobre a mina dele)... e levou-nos de carro até à famosa cidade artesanal de pedras preciosas, Khambhat, que é um lugar incrivelmente histórico e de outro mundo.



Gemini ha dicho

Khambhat... uau, que lugar!

Não está propriamente em nenhum mapa turístico. Não há cafés de yoga. Não há vistas para a montanha. Nem sequer um hotel em condições (ficámos instalados mesmo à saída da cidade, num alojamento de beira de estrada). Infelizmente, a costa ficou assoreada e o mar está agora a 10 quilómetros de distância mas ainda mantêm um passeio marítimo. Há muitos edifícios britânicos antigos e fomos levados a um local com uma história épica, totalmente abandonado (vê abaixo).

O lugar é apenas calor, pó, ruas estreitas... e uma história que corre profundamente. A parte antiga da cidade ainda tem pequenas lojas de comércio que parecem ter cem anos. Temos vários fornecedores nesta cidade, pessoas com quem trabalhamos há muitos anos — em dois dos casos, já vamos na segunda geração. Se alguma vez te perguntaste por que razão a AW tem a melhor relação qualidade-preço e a maior gama de produtos de pedras preciosas, este lugar é um dos nossos "segredos comerciais"... ups, mais um segredo que te conto.



Era uma vez, este foi um dos grandes portos comerciais da Índia. O Golfo de Khambhat recebia navios da Arábia, de África e até de Roma. Especiarias, seda, contas, ideias — tudo passava por esta cidade muito antes de a palavra "globalização" ter sido inventada.

E pedras.

Khambhat tornou-se famosa pela Ágata. Cornalina. Jaspe. A terra aqui entrega estes tesouros e, há gerações, as famílias moldam-nos à mão. Não são fábricas. São oficinas em pátios. Pais a ensinar filhos. Agora, filhas também. O som das mós de corte, os tambores de polimento, o ritmo do ofício passado silenciosamente ao longo de séculos. Hoje em dia, a cidade importa pedras preciosas de toda a Índia, o nosso amigo, o dono da mina, traz carregamentos de camião para aqui... atravessando a Índia desde Jharkhand.

Há algo de muito "Ancient Wisdom" nisso.

Caminhas pelas ruelas e vês pedras brutas em sacos no chão. Pó por todo o lado. Depois, vês as peças finalizadas — esferas, pedras de toque, geodos — a brilhar como pores do sol aprisionados. Transformação. Do bruto ao refinado. Da terra ao objeto com significado.



Mas depois, o nosso contacto das minas falou-nos de um lugar com uma história asseberadora. Tão especial que até fizeram um filme famoso sobre ele... talvez já o tenhas visto. Nos arredores da cidade, perto do que teria sido uma praia nos velhos tempos... Ele mostrou-nos um campo de Críquete e um pavilhão abandonados.


O campo está coberto de mato mas o pavilhão ainda resiste.

Em 1721, marinheiros da Companhia das Índias Orientais jogaram uma partida perto de Cambay (como se chamava Khambhat na altura), observados pelos locais e registados nos diários do Tenente Clement Downing — esse momento à beira-mar é frequentemente apontado como o primeiríssimo vislumbre do "gentleman’s game" (jogo de cavalheiros) na Índia.

Consegues acreditar?! Encontrámos o local de nascimento do Críquete na Índia... reza a lenda que os locais aprenderam o jogo ali. Foi feito um filme sobre isso: Lagaan — o drama épico, nomeado para os Óscares, sobre uma aldeia indiana assolada pela seca em 1893, onde os agricultores desafiam os oficiais britânicos para uma partida de críquete para se livrarem de impostos opressivos. Este filme captou a imaginação de toda uma nação, transformando o críquete num símbolo de resistência, união e transformação.


É um filme fantástico! Se nunca o viste, recomendo-o vivamente.

E ali parado — entre as oficinas de pedras preciosas e aquele pavilhão de críquete esquecido — percebes algo de belo.

Em Khambhat, as pedras são moldadas à mão e, outrora, os jogos moldaram a história. Os britânicos podem ter trazido o críquete, mas a Índia tornou-o seu. Tal como a terra entrega a ágata bruta e as mãos locais a transformam em algo luminoso.

É isso que tentamos fazer na Ancient Wisdom.

Encontrar o estado bruto. Honrar a história. Trabalhar com pessoas que carregam a mestria no sangue. E depois, enviar algo com significado de volta para o mundo.

Desde os campos poeirentos até às esferas brilhantes — tudo faz parte da mesma viagem. E, de certa forma, parece que ainda estamos a desempenhar o nosso papel num jogo muito mais antigo.

Fica bem. Mais notícias na próxima semana...

David

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